segunda-feira, 23 de junho de 2008

confissão

Caminho por uma imensa escuridão
O animal diante de mim
E olho-lhe bem de perto nos olhos...
E pergunto-lhe
De que lado deste vidro estas?
E se tudo o que esta a nossa volta
Não fosse tal como parece?
E se esta jaula em que vivemos
Fosse construída por nós?
Será que é isto tudo que queremos ser?
Se olhasses deste lado do vidro
Verias tudo aquilo que querias ver?
Será que te encontravas amedrontado por ver?
Que nos criamos a nós próprios...
Semeando as mentiras que escolhemos acreditar
E se olhares bem o teu reflexo...
Era isso tudo que querias ser?
Estará tudo no seu devido lugar?
Existirá o lugar certo?
Tudo antes do tempo e para além da razão
E continua.... continua... continua
Explodindo em cada artéria um argumento
Porque nunca havemos de morrer
Nunca para além do nosso tempo
Agradecidos por qualquer sentimento
Que nos faça desejar estar mais atentos

Mas não fiques excitada pela minha confissão
Espera pelos teus deuses....
Porque eu vou volta-lo a fazer de novo
Reza, enquanto cegas
Reza, enquanto ensurdeces
Hão de te comer viva, não é surpresa
Por-te a chorar, e mentir-te
E eu hei-de fazê-lo de novo
Nem que seja para viver mais um pouco
Entrincheirado no meio das tuas coxas
Por detrás do teu desejo
Pronto a explodir
Mas porque raio esperas
O teu deus está a vir, e eu também...
Reza, enquanto me cegas
Reza, enquanto me ensurdeces
Reza, enquanto me sugas
Havemos de nos comer vivos
Enquanto teimamos em ficar de pé
De costas voltadas
Abraçados ao nosso reflexo
Enquanto o diabo nos corta os olhos
E deixamos de ver
De nos ver
De viver

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Abranda

Já chega... Abranda o ritmo...
e inspira.
Estás ofegante e apressado
para onde tu ainda nem sabes bem,
mas confiante num rumo
que tu nunca escolheste.
Não estás cego,
mas hipnotizado e sedado
com confusões e confissões
que não são as tuas
que não são nenhumas
que não te deviam confundir.

Já chega... Abranda o ritmo...
e inspira.
Com tantos anjos em teu redor
encontras-te sozinho
guerreando as sombras.
O meu Pai bateu-me para me ensinar
que também somos sangue
que sobretudo somos dor...
Cuspi a saliva ensanguentada e gritei
"eu não me importo!!!"
Com as moscas que fustigam este lugar
com a luz que me bloqueia a retina
com a importância que me dão...

Rio da nossa imagem amedrontada
do reflexo desconexo no nosso olhar
e o dedo trémulo no gatilho.

E choro também.

Paciência e silêncio.
Não nos escutamos mais.
Disposição.

Só temos alma porque o coração não chega

quarta-feira, 11 de junho de 2008

...Comigo!


Concedo-lhe a última dança
Mas não a chamo pelo nome
Tenho medo e estou assustado
A confiança é um poder mal medido
E poderei eu sair daqui chamuscado
Dessa forma cumpro o meu papel
E não nego
Mas também não dou nada
Estou cego, surdo e mudo
Só não estou é calado
Pois farto-me de falar comigo mesmo
Que até eu começo a ficar cansado

Desta voz
Desta resposta
Deste desespero

A observação é uma virtude
Mas se observar com demasiada atenção

Vejo o que não quero
Sofro pelo que não posso
Pago pelo que não devo

Estou acordado.....
Mas a tentar adormecer!